A Empatia como um desafiador exercício para a (o) profissional de Psicologia

21 julho 2019

 

Imagem: Geralda Guevara

 

Olá colega psi, como vão as coisas?
Hoje quero inaugurar a escrita de textos um pouco mais relacionados à minha faceta “psicóloga clínica”. Embora eu não acredite que este seja um tema específico da Psicologia normalmente chamada Psicologia Clínica. E, pensando nisso, me surge um questionamento: será que há assuntos restritos a cada uma das nossas áreas de atuação? Como estamos lidando com a pluralidade da Psicologia quando separamos os assuntos e temas em caixinhas? Creio ser este um bom assunto para outro momento. Se você também se interessa por esta reflexão, me conta nos comentários. Quem sabe não surge por aqui um texto sobre isso?

Mas vamos lá. Deixando esta questão para outro momento, minha proposta para nossa prosa de hoje é lançar luz à uma palavrinha que vem sendo muito utilizada por aí, no meio psi e também fora dele: EMPATIA. Muito provavelmente você já ouviu ou já falou sobre empatia. E aí, topa conversar comigo sobre este assunto?
Já há algum tempo, eu venho observando o tanto que as pessoas tem lançado mão da palavra empatia. Frases como: “seja empático”, “promova a empatia”, “mais empatia, por favor”, entre outras, são comuns de serem vistas em posts nas redes sociais e nos mais diversos espaços por onde circulo. E ouvindo as pessoas falando sobre esse tema, diversas vezes já me perguntei: será que só eu compreendo o exercício da empatia como algo extremamente desafiador?

Fato é que minhas indagações foram me gerando incômodos e mais incômodos. Porque tem me parecido tão simples falar em empatia. A meu ver, virou moda. Viralizou, como dizem por aí. E tudo que vira moda, a princípio me incomoda, com o perdão do trocadilho…rsrs Me incomoda porque toca meu alerta de possível esvaziamento de sentido. Me cheira a produção em larga escala, sem reflexão, sem propósito, sem aprofundamento. E, me conta aí, você acha possível exercer a empatia sem saber o que de fato a constitui? Sem refletir?

Esta foi minha mola propulsora para me propor a escrever sobre isso. Porque acredito ser essencial que nós, profissionais da Psicologia, nos atentemos para não contribuir para a roda do exercício raso da EMPATIA. Temos o compromisso ético de falar de empatia sim, mas com propriedade, debruçando-nos sobre este conceito, bebendo nas suas fontes. Escolhi, para compreender melhor o conceito de EMPATIA nesta prosa, o trabalho do psicólogo americano Carl Rogers, o grande nome da Psicologia Humanista. Mais precisamente o conteúdo publicado em seu livro Tornar-se Pessoa.

Rogers é o fundador da abordagem psicoterápica denominada Psicologia Humanista, que acredita nas potencialidades do ser humano e nas suas capacidades de transformação e atualização. Penso ser um autor imprescindível para quem quer conhecer um pouco sobre o tema de nosso texto, mesmo para aqueles que não se orientem pela Terceira Força em Psicologia.

Na obra que utilizarei neste texto, Rogers faz, brilhantemente, uma apresentação de sua abordagem de trabalho, a partir de uma descrição bastante clara de suas experiências de vida pessoal que o auxiliaram a construir seu modo de ser psicoterapeuta e aponta diversos aspectos que facilitam nosso entendimento da empatia. Nomeia todas as formulações que vai fazendo como descobertas. Já no início, afirma que a direção da psicoterapia é do cliente. Pontua que ser psicoterapeuta requer um esforço em busca de desenvolvimento pessoal permanente. Completa ainda que, em sua experiência, observou-se sendo mais eficaz quando se colocou disposto a ouvir a si mesmo aceitando-se e se permitindo ser si mesmo. Este ponto é, a meu ver, extremamente importante para nossas reflexões sobre empatia. É possível ser empático com o outro se não sei o que se passa dentro de mim mesma? Se não me conheço, se não me observo?

Do meu ponto de vista, está então colocada nossa primeira tarefa. A (o) profissional da Psicologia precisa olhar para si mesma (o). Estamos aqui falando do espaço da psicoterapia, mas lembrando da reflexão lá do início deste texto, isto não é algo que se restringe ao exercício do trabalho clínico. Em qualquer campo de atuação, a (o) psicóloga (o) está em relação com outras pessoas. O exercício relacional demanda autoconhecimento. “Promova a empatia”. Mas comece por você. Esta é uma das principais condições para ser facilitadora de transformações na existência do seu cliente. Para Rogers, a mudança começa pela aceitação. E a aceitação, segundo ele, torna as relações reais, vitais e significativas. (ROGERS, 2001)

Em todo o seu texto, nosso autor traz as noções de aceitação e compreensão caminhando de mãos dadas. Seja em relação a si mesmo, seja em relação às outras pessoas. Sobre a relação com outro, Rogers vai nos dizer: se permita compreender outra pessoa. O autor afirma que, embora possa nos parecer estranho, é sim necessário nos permitir compreender outra pessoa, tendo em vista que, na maioria das vezes, nossa primeira reação ao contato interpessoal é de avaliação: “isso é bom”, “isso está errado”. Segundo ele, é raro que nos permitamos compreender o significado que tem para a pessoa aquilo que ela está dizendo ou expressando.

Rogers vai trazer a noção, bastante interessante, de que compreender é um ato arriscado. Isto porque, quando compreendo posso ser acarretado por uma mudança em mim mesma. E a possibilidade de mudança nos provoca medo. “Por isso, como afirmei, não é fácil permitir a si mesmo compreender outra pessoa, penetrar inteiramente, completa e empaticamente no seu quadro de referência.” (ROGERS, 2001, p. 23) O autor resume aqui o motivo pelo qual considero o exercício da empatia tão desafiador e complexo. É preciso que eu esteja disposta e aberta a ser transformada pelo outro.

Desafiador sim, mas enriquecedor também. Neste processo de compreensão do outro, posso descobrir sobre mim mesma coisas que até então eu desconhecia, posso caminhar rumo a uma autotransformação e posso me tornar mais sensível, como também menciona Rogers. Além disso, é a minha compreensão que pode facilitar a transformação da pessoa com a qual eu estabeleci uma relação. E mais uma vez, junto à compreensão, está a aceitação.
O autor vai dizer que, assim como a compreensão, a aceitação também não se constitui um processo fácil. Mas defende que é um processo indispensável para que um psicoterapeuta auxilie alguém a “tornar-se pessoa” (expressão do autor). É só a partir da aceitação dos sentimentos, crenças e atitudes que constituem a identidade do outro que faz-se possível que eu exerça alguma contribuição. Mais à frente, novamente ele vai apontar o aspecto transformador da relação empática ao dizer que quanto mais ampliada foi se tornando sua atitude de escuta para com os outros, mais respeito passou a sentir pelos complexos processos da vida.

“… o aspecto paradoxal da minha experiência é que, quanto mais me disponho a ser simplesmente eu mesmo em toda a complexidade da vida e quanto mais procuro compreender e aceitar a realidade em mim mesmo e nos outros, tanto mais sobrevêm as transformações. É de fato paradoxal verificar que, na medida em que cada um de nós aceita ser ele mesmo, descobre não apenas que muda, mas que as pessoas com quem ele tem relações mudam igualmente.” (ROGERS, 2001, pp.25-26)

O autor aponta ainda que a vida um processo fluído, passível de alterações e onde não há nada fixo, é sempre um processo de devir, que se orienta por uma compreensão e por uma interpretação variáveis da experiência pessoal. Ensina que como psicoterapeutas, faz-se necessário que olhemos para o outro como aquele que tem permissão e liberdade de desenvolver sua própria liberdade interior para que possa compreender significativamente sua própria experiência.

Vi com muito encantamento o modo como Rogers vai descrevendo suas percepções, através das quais construiu sua abordagem de trabalho psicoterápico. Acredito que as noções de aceitação e compreensão empática como pontos centrais, aliadas à importância da própria experiência no processo de encontro com o cliente, nos trazem ensinamentos bastante enriquecedores para a prática profissional da Psicologia.

Termino essa prosa, auxiliada por Rogers, concluindo que para o real exercício da empatia, é fundamental um pouco mais que simplesmente se dizer empática. Exercer a empatia em um contexto de prática psicológica exige um processo contínuo de autoconhecimento, o conhecimento de suas bases teóricas e a permissão para vivenciar a experiência de estar em relação com o cliente de modo genuíno e real, aceitando e compreendendo a experiência de existir daquele que está à minha frente. E aí, colega psi, pronta (o) para o desafio? Aproveita e me conta aqui suas experiências e curiosidades sobre a Empatia?

 

PS: Dedico esta reflexão à professora e amiga Henriqueta Couto, que teceu provocações que me levaram a um belo encontro com Rogers.

 

Referência Bibliográfica:
ROGERS, Carl R. Tornar-se Pessoa. 5ªed.SP: Martins Fontes, 2001.

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