Psicologia Fenomenológico-Existencial: Reflexões sobre o embasamento teórico para a prática psi na clínica

13 fevereiro 2020

Imagem: Geralda Guevara

 

 

Por: Lívia de Paula

Quem já acompanha o Cá entre nós, Psi! sabe que, mês a mês, tenho apresentado as categorias temáticas que norteiam a escrita dos textos para este espaço. Tais categorias foram escolhidas por se relacionarem com a minha prática como psicóloga e também por aquilo que acredito como pessoa e profissional. O Blog foi criado para ser um espaço de partilha e troca de experiências e, para mim, só faz sentido se estiver alinhado com referenciais teórico-metodológicos sim, mas também com o cotidiano da prática das (os) psicólogas (os) e com os desafios que enfrentamos neste cotidiano. Este é o meu compromisso neste espaço.

A penúltima categoria que vou apresentar por aqui é a categoria intitulada “Psicologia e Clínica”. Além de trabalhadora do serviço público, sou também desde que me formei, há 16 anos, psicóloga clínica. A Clínica é um campo comum a muitas (os) psicólogas (os), entretanto as formas e metodologias de atuação neste campo são as mais diversas possíveis. Pensando isso, escolhi fazer um texto que apresentasse um pouco o embasamento que escolhi para o meu trabalho clínico. Creio que isso se faz essencial, visto que existem muitas diferenças entre um trabalho clínico e outro, a depender do aporte teórico-metodológico utilizado por cada profissional.

Como vem sendo de praxe por aqui, vou contar um pouquinho da minha história em relação a essa categoria, repetindo novamente que entendo como necessário esse recorte mais pessoal, por acreditar que nossa história é importante em nosso caminhar profissional.

Até o sexto período da graduação, eu tinha certeza que me nortearia pela psicanálise. Até ali eu conhecia a psicanálise, a cognitivo-comportamental e só. Tive professores maravilhosos embasados na teoria psicanalista e nutria profundo encanto por alguns. Aqui em Minas, a psicanálise é muito forte. Posso dizer, sem medo de estar equivocada, que ela orienta o ensino de quase todas as disciplinas. Como disse, certa vez, uma grande amiga, poderíamos até dizer que fomos graduadas em Psicanálise. Isso é uma crítica? Sim. É de fato uma crítica. Embora reconheça a importância da teoria psicanalítica, creio que quando falamos de graduação é preciso ir além, diversificar a formação, abrir espaços para outras possibilidades epistemológicas de compreensão do homem. Mas, vamos lá que isso é assunto para outro texto.

Estava lá eu, aluna recém chegada ao sétimo período, tendo meu primeiro contato com a Psicologia Fenomenológico-Existencial. Este era o nome da disciplina. Psicologia Fenomenológico-Existencial I. Depois, no oitavo período, Psicologia Fenomenológico-Existencial II e no nono, Gestalt-Terapia. Faço um parêntese aqui para falar do professor destas disciplinas. Quem já leu outros textos meus, especialmente no Blog Psicologia no SUAS, sabe que já citei professores em outros momentos. Considero muito importante dizer deles, nomeá-los, pois acredito que o processo de aprendizagem passa pelo afeto. E mais uma vez, peço licença para citar o professor destas disciplinas, Roberto Righi. Lembro-me, como se fosse hoje, de suas provocações, das angústias instauradas e do meu encantamento. Fui afetada. E, em resposta a estes afetos, comecei ali outro caminho. Continuo até hoje admirando a Psicanálise e aqueles professores que a transmitiam com tanta verdade. Mas, do sétimo período em diante, descobri o caminho teórico que nortearia minha prática clínica.

A partir daí não parei mais de buscar conhecer melhor esse aporte teórico. Na graduação fiz todas as disciplinas e estágios supervisionados que foram possíveis, finalizando o percurso com o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) ancorado nesta perspectiva. Recém-formada, fui parar em São Paulo para um curso de formação a respeito, no qual tive aulas com professores referência no Brasil, como Yolanda Forghieri, José Carlos Michelazzo e José Paulo Giovanetti. Lá também conheci um professor que até hoje me acompanha como orientador e inspiração, o querido André Torres. Concluído este curso, permaneci estudando e também me atualizando, participando de congressos, eventos e outras atividades sempre que possível. Tive também a oportunidade de concluir em 2018 uma especialização nesta mesma perspectiva. E neste momento, junto com duas colegas psicólogas, estou trabalhando na criação de um Grupo de Estudos em Psicologia Fenomenológico-Existencial aqui no munícipio onde moro.

Esta é a trajetória norteadora do meu embasamento para o exercício da Psicologia Clínica. Esta é a trajetória que norteará a escrita de textos sobre esta categoria aqui no Blog. É fundamental que fique expresso que, todas as vezes que eu falar de Psicologia Clínica neste espaço, estarei falando da Psicologia Clínica ancorada na perspectiva Fenomenológico-Existencial. Se você se interessa por essa perspectiva, te convido a tecer reflexões aqui comigo a respeito. Se você ainda não conhece esta abordagem, é uma boa oportunidade para isso.

Um dos propósitos deste texto é contar a vocês um pouquinho do que eu aprendi nestes anos todos de caminhada em busca de qualificação. Em primeiro lugar, creio ser importante reafirmar a minha percepção, compartilhada por alguns colegas com os quais dialogo a respeito, de que esta vertente teórica é bastante desconhecida pelas (os) psicólogas (os) no geral, o que contribui para que ela seja vista com muitos preconceitos, sendo inclusive alvo de chacotas. Não raras vezes já ouvi expressões como: “ah, vocês são os bonzinhos”, “então pode ser amigo do paciente?”, “mas tem teoria essa abordagem?” Infelizmente esta é a visão de muitas das (os) profissionais e inclusive de algumas (alguns) que até se dizem simpatizantes da Psicologia Fenomenológico-Existencial.

Outro ponto que exemplifica isso é a falta de conhecimento a respeito do que chamamos de abordagem teórica. Abordagem teórica diz respeito ao modo como compreendemos o homem. E essa compreensão, muitas vezes, diverge fortemente entre abordagens diferentes. E me arrepio quando escuto com naturalidade: “me oriento por tal abordagem e pela Existencial”. E isso também, no meu cotidiano, não é raro ouvir. E frente a isso, é primordial mencionar a importância de se separar o reconhecimento das mais diversas abordagens como relevantes e a miscelânea que se instaura quando eu não sei de que homem estou falando. Fica o alerta e a provocação para todas (os) nós. Antes de dizer que gosto dessa ou daquela, que “sou” isso ou aquilo, preciso conhecer de fato sobre o que estou falando.

Quero destacar também que para quem acha que a Psicologia Fenomenológico-Existencial ou a Psicologia Humanista é “mais fácil”, “não tem teoria” ou “basta ser amigo” sinto informar que está enganada (o). A tarefa de estudar esta vertente teórica é árdua. É preciso estudar Filosofia. |Conhecer Kierkegaard, Nietzsche, Husserl, Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty, dentre outros autores, é tão difícil quanto pronunciar seus nomes. Sem o mínimo conhecimento destes filósofos, não há como avançar nos estudos desta Psicologia que tem raízes filosóficas. Em toda a minha trajetória, mergulhei fundo em todos os cursos e oportunidades, e a sensação é de que continuo sendo iniciante. É desafiadora a proposta desta epistemologia. Não menos que nenhuma outra proposta dentro da Psicologia.

E de cara nos deparamos com uma confusão. A ideia de que Humanismo, Fenomenologia e Existencialismo é tudo uma coisa só. Às vezes até a Gestalt-Terapia entra misturada nessa salada. Vejo que há pouco cuidado nos percursos formativos com as diferenças entre estes aportes. A maioria das disciplinas é nomeada de Psicologia Humanista-Existencial ou até Psicologia Humanista-Existencial-Gestáltica. No meu próprio percurso, levei tempo para saber que não era tudo uma coisa só. E sigo tentando localizar e compreender melhor as diferenças. Penso ser esta uma tarefa fundamental para quem se interessa por aprofundar-se nos estudos a respeito destas visões de homem. Sobre isso, quero citar aqui o professor Giovanetti (2017):

O desafio diante do qual nos deparamos é de vermos agrupados sob o nome de Psicologia Humanista, e, mais especificamente, de Psicoterapia humanista existencial, as mais diversas práticas de psicoterapias, algumas meras técnicas que não têm nada a ver com a Psicologia Humanista ou Fenomenológico-Existencial. Este desafio se manifesta de uma dupla maneira. Em primeiro lugar, seria necessário separarmos as práticas terapêuticas de orientação humanista-existencial das meras práticas alternativas que se proliferam no mundo moderno. Em segundo lugar, dentro das práticas humanistas existenciais, separamos as diversas orientações que, num primeiro momento, podem parecer iguais, mas apresentam fundamentações teóricas divergentes. (GIOVANETTI, 2017, p.11)

Esse apontamento, a meu ver, deve ser o ponto de partida para quem deseja se embrenhar nesta vertente teórica. Há diálogos entre a Psicologia Existencial, a Humanista, a Gestal-Terapia, a Logoterapia, entre outras, mas há também divergências. Para circulamos entre estes aportes, é essencial nos interessarmos por suas raízes, semelhanças e diferenças. Seguindo com Giovanetti (2017), ele vai nos dizer que uma das principais semelhanças entre todas estas teorias é o entendimento de que a Psicoterapia é um encontro interpessoal entre terapeuta e paciente. É um trabalho conjunto entre os dois, que adquire sentido na relação que é estabelecida entre eles. Neste trabalho, o que fica em evidência são as experiências do paciente. Destaca que a Psicoterapia não pode ser entendida como uma aplicação de técnicas, ela se dá na relação.

Dito isso, este texto pretende ser um convite à reflexão sobre nossas escolhas teóricas e profissionais. Não somos, conforme pontuou o autor, meros aplicadoras (es) de técnicas. Na era do imediatismo e da busca por soluções mágicas, sustentar uma postura que vá na contramão disso, requer segurança e embasamento. É fundamental que saibamos nosso posicionamento, suas bases e objetivos. Falando das práticas de orientação humanista ou existencial, reforça-se a necessidade de diferenciá-las entre si, buscar conhecer suas origens e desconstruir o mito de que não são abordagens com sedimentado embasamento teórico, bastando ser “afetuosa (o) e amiga (o)” de quem atendemos.

Em minha trajetória, no que concerne a esta questão, a vertente teórica mais presente foi a Psicologia Fenomenológico-Existencial. Até o momento foi o que mais estudei. Desejo conhecer melhor a Psicologia Humanista, a Gestalt-Terapia, a Logoterapia, entre outras. Entendo ser primordial conhecer as vertentes que compõem o arcabouço das abordagens agrupadas dentro desta perspectiva. Por aqui, tentarei avançar nesta direção. Os textos da categoria Psicologia e Clínica trarão reflexões norteadas por alguma destas vertentes.
Esse é o diálogo que me interessa na prática especialmente da Psicologia Clínica. Outros campos da Psicologia, como o campo das políticas públicas, podem ser enriquecidos pelos conhecimentos destas abordagens. Mas, esse é um assunto para outro texto. Por ora, a prosa é sobre Clínica. E você aí, se interessa por este arcabouço de abordagens? Se embasa nele? Me conta sua experiência?

 

P.S. Meu agradecimento especial à Geralda Guevara, colaboradora que ilustra os textos por aqui. A Psicologia Clínica é campo desconhecido para esta parceira, entretanto sua ilustração reflete bem a compreensão da Psicoterapia com um encontro interpessoal entre duas pessoas, que semeia e faz florescer.

 

Referência Bibliográfica:

GIOVANETTI, J.P. Psicoterapia fenomenológico-existencial: Fundamentos filosófico-antropológicos. 1ªed. Rio de Janeiro: Via Verita, 2017.

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